Piper Chapman:
“The food here is disgusting!” (A comida aqui é horrível!)
Começar a transformadora jornada com uma atitude nada cuidadosa foi um dos primeiros – e, se não, um dos maiores – erros da doce Pipes, que logo se torna Chapman, a mais nova detenta da prisão feminina de Orange is the New Black. No piloto, I Wasn’t Ready (01×13), em uma tentativa desesperada de se enturmar – longe de confortos, amigos e liberdade –, a loirinha faz, segundo as palavras de Nicky (Natasha Lyonne), um epic fuck up (uma grande bisada na bola): desprezou a comida de Galina Reznikov (Kate Mulgrew), a controladora cozinheira russa da penitenciária de Litchfield, conhecida como Red. Em resposta ao insulto, nada pareceu mais justo a mestre cuca do que o morning special preparado para Piper no dia seguinte: um sanduíche recheado com absorvente usado (eca!).

Mas a punição não ficou apenas por isso. Até mostrar o seu merecimento e esforço – que culminou com a produção de um creme à base de pimenta jalapeño para Red (02×13) –, Piper definhou dias e dias sem comer, até mesmo rejeitando um bolo oferecido pela sua ex-namorada e atual colega de prisão, Alex (Laura Preston). Afinal, se ela queria ganhar a confiança de uma das mulheres mais poderosas de Litchfield, teria de mostrar a sua fibra. Com a situação resolvida, o sofrimento de Piper é amenizado – em uma cômica e devoradora cena – com um verdadeiro café da manhã especial regado à waffle e frutas.

É claro que, apesar de sua declaração infeliz, Piper não estava totalmente errada – apesar da falta de noção. A comida de Red provavelmente não era a mais saborosa que ela já havia provado. Afinal, aquilo era uma prisão, não um restaurante. Era de se esperar que o cardápio não fosse um banquete (ou, ao menos, Piper deveria ter se dado conta disso). No entanto, não se pode tirar o mérito da bela equipe coordenada pela destemida russa. Como diz o famoso cozinheiro Anthony Bourdain, em seu livro Kitchen Confidential, o chefe deve ter consigo os melhores profissionais – aqueles em que se pode confiar para todas as missões –, formando uma “brigada”. E é esse o trabalho que Red e suas fiéis companheiras Norma (Annie Golden) e Gina (Abigail Savage) empenham todos os dias para servir centenas de refeições – sempre balanceadas, daquele tipo que faria feliz qualquer nutricionista!

Apesar da bravura, o que dá orgulho à Red em seu trabalho diário é o amor pela boa comida. Logo nos primeiros episódios de Orange, conhecemos sua história no pequeno estabelecimento que gerenciava com o marido antes de ser presa. Para ela, estar em uma prisão não significa que as pessoas devem comer mal com alimentos ruins. Ao contrário, ela faz de tudo para manter o ambiente limpo e o estoque cheio com os melhores ingredientes, tanto para a comida básica como para os dias festivos. Um ponto muito interessante que completa demais essa personagem é a paixão da própria atriz, Milgrew, pelo universo da comida. Em recente entrevista ao LA Weekly, ela comentou sobre a sua proximidade com Red e a alegria da cozinha. “Há um orgulho em cozinhar, uma generosidade e uma gratificação para isso. Você sente orgulho daquilo que está produzindo, é generoso porque quer alimentar as pessoas que você ama…Esse é um sentimento maravilhoso. É maternal, é sensual. Comida é vida”, declarou a atriz. Na série, um dos momentos mais enigmáticos e evidentes dessa dedicação e carinho está no episódio The Chickening (05×13), em uma atuação espetacular de Mulgrew, quando Red recebe a notícia de que a galinha perdida – uma história lendária de Litchfield – está rodando pelo pátio da penitenciária. O brilho nos olhos da cozinheira é uma injeção às suas potentes palavras: “Tudo o que eu queria era comer um frango que fosse mais esperto que os outros frangos [industrializados, falsos] e absorver o seu poder”.

Além de conhecer os alimentos e ter uma equipe organizada, um trunfo de Red é a parceria com Miss Claudette (Michelle Hurst), uma organizadíssima senhora de origem francesa – maniática como a Monica (Courteney Cox) de Friends –, que é como a sua sub-chefe. Juntas, as duas comandam a entrada e saída de tudo o que interessa à cozinha da penitenciária, sempre com muita rigidez e cuidado (e controle sanitário!). Essa relação, por vezes distante, se mostra muito forte – e culinariamente respeitosa – em Blood Donut (7×13), quando Ms. Claudette retorna à cozinha.
Red:
“Nós estávamos começando a pensar que você tinha nos abandonado”
….
“Eu tentei fazer aquele bolo de coco sozinha. Nicky chamou ele de sem-coco [coco-not]”
Ms. Claudette:
“Que punição você deu a ela por isso?”
Red:
“Ela estava certa, não há como imitar o seu bolo”.

De fato, o bolo de coco da Ms. Claudette é uma das receitas mais pedidas, desde o início, pelas detentas. Antes mesmo de aparecer nos episódios, a sobremesa já era requisitada como presença certa em todas as celebrações, especialmente nas despedidas, quando alguém finalmente conquistava a liberdade. O tempo em que Ms. Claudette esteve afastada da cozinha foi quando Red tentou reproduzir a receita da companheira e, mesmo sendo uma brava cuoca, faltou a pitadinha secreta da criadora do delicioso e famoso bolo de Litchfield. Com o final surpreendente da primeira temporada, que separou as duas colegas e instituiu uma nova equipe para a cozinha, nossa homenagem culinária de hoje é ao coconut cake, com mordidas esperançosas e cheias de ansiedade para saber o futuro da valiosa aliança franco-russa.
Coconut Cake de Orange is the New Black

Ingredientes:
4 ovos
3 xícaras (chá) de farinha de trigo
2 xícaras (chá) de açúcar
½ xícara (chá) de óleo vegetal
1 xícara (chá) de leite morno
2 colheres (chá) de extrato de baunilha
4 colheres (sopa) de coco ralado
2 colheres (sopa) de fermento químico
Pitada de sal
Para decorar:
Chantilly, leite condensado e coco ralado a gosto
Modo de fazer:
1. Em uma batedeira, misture os ovos e o açúcar até que a mistura cresça de volume e fique com coloração esbranquiçada.
2. Adicione o óleo, a baunilha, o coco e, aos poucos, insira a farinha, intercalando com o leite.
3. Quando a mistura estiver homogênea, desligue a batedeira, adicione o fermento e misture com uma colher.
4. Asse em uma forma retangular por cerca de 30 minutos, em forno médio pré-aquecido (180 a 200 C).
5. Se preferir, quando o bolo estiver frio, desenforme.
6. Faça furos na superfície do bolo e molhe com leite ou leite de coco.
7. Na sequência, faça uma cama de leite condensado e, por cima, espalhe o chantilly (caseiro ou pré-pronto) com auxílio de uma espátula.
8. Finalize a decoração com o coco ralado.
Apesar de serem vários passos, garanto que essa receita é bastante simples de fazer. Você precisará de duas ou três horas, pois é necessário que o bolo esfrie para não esfarelar ou quebrar na hora de umedecer e colocar as coberturas. A dica é comer gelado!
Na pesquisa para trazer essa delícia ao Teleséries, descobri que o coconut cake é um prato importante da cozinha sulista dos Estados Unidos, uma culinária de bastante apelo caseiro. Em 2007, a autora Nancie McDermott escreveu o livro Southern Cakes (Bolos do Sul), no qual faz referência ao bolo de coco como uma experiência única em família, especialmente na época de Natal, pois o prato é conhecido como uma holiday tradition (tradição de feriado). As receitas são incontáveis de tão famoso que é o prato e cada cozinheiro dá a sua pitada. Assim, para agradar os nossos leitores e prender os seus sentidos, montamos essa receita com ingredientes fáceis de encontrar e com o toque docinho do leite condensado e do chantilly que tanto marcam os doces brasileiros.

Be ready to surrender! (Estejam prontos para se render!)
Fotos da comida: Guilherme Moreira