O ponto forte de Salem? A dubiedade da trama em definir-se. Uma história dos medos que levaram aos julgamentos de Salem, ou uma história de bruxas reais, ambientada no espaço que mais evoca, no imaginário popular, a existência deste personagem de contos de fada e fantasia? O que a história deve ser ficou claro somente a partir da metade do episódio.
21 de setembro de 1685. Sete anos antes dos acontecimentos que colocaram Salem no radar da história. As bruxas ainda não andavam soltas pelo povoado, mas já habitavam o imaginário popular há tempos. A luxúria era exemplarmente punida em praça pública, embora a hipocrisia não o fosse. Dessa forma ofereciam-se sacrifícios a Deus, imolando-se o pecado através da expiação coletiva, efetivamente praticada por aqueles que, em um momento de descuido ou de consciência culpada, tivessem se deixado apanhar. Esperava-se que o sangue derramado através da chibata fosse suficiente expiação para o mal praticado e colocasse a divina proteção do Criador entre as mazelas trazidas pelo demônio ou, no caso, pelos franceses e pelos índios, e as residências do povoado.
É assim que começamos a conhecer Salem. Quando Isaac Walton tem imprimido a ferro quente na pele, para a vida toda, a indicação de seu pecado. Seu sangue mancha a terra poeirenta da vila. O braço da autoridade, nas mãos de George Sibley, executa a lei e as vozes de John Alden e do juiz Hale destoam ao questionarem a trágica exibição de justiça.
Uma cena encontrada em muitas narrativas históricas.
Em meio ao burburinho geral, os olhares de Mary e John se cruzam e esta fração de segundos não escapa à atenta percepção de Sibley. O medo é instaurado, mais como uma percepção da impossibilidade de que haja um futuro para os dois amantes e sobre qual a forma que este castigo adquirirá, do que por uma ação efetivamente desenvolvida. Na sequência, do alto de sua sacada, Sibley vigia e os amantes se despedem. John por puro senso de dever une-se à milícia que luta contra os franceses; Mary, talvez por uma questão de honra, não lhe diz que espera um filho seu. A moeda partida, promessa de reencontro, transforma-se em símbolo de separação. E a história começa.
Qual história? Aquela que irá retratar as narrativas históricas sobre o julgamento de Salem, no qual a histeria, justificada pela culpa diante da quebra das convenções sociais, levou à morte dezenas de pessoas? Ou aquela que herdamos das narrativas fantásticas que habitam a imaginação e o inconsciente coletivo?
Tituba levou Mary para a floresta para que fizesse um aborto, ou para entregar uma alma imaculada ao demônio? Foi uma alucinação o que Mary viveu na floresta, ou o mal a cercava de forma concreta? Uma bruxa realmente habitava o quarto de Mercy Lewis ou, mais uma vez, o horrendo ser que a ataca era apenas um produto de suas culpas ou medos imaginários? Isaac sabe mais do que pode dizer ou o trauma do castigo sofrido lhe deturpou a mente de forma irrevogável?
Até a metade do episódio a opção não era clara.
Aguardamos em expectativa. Até que… um sapo é vomitado por Sibley e alimentado pelo sangue de Mary! Dito desta forma parece cômico, mas poderia ter sido pior. Bruxas poderiam chegar em vassouras e voar Salem adentro, aterrizando em praça pública! E este não foi o único defeito de Salem. Ainda temos o roteiro arrastado e a falta de suspense e tensão, que este tipo de história sempre promete.
Mas quando tudo parecia ser mais um pouco do mesmo contado e recontado dezenas de vezes, e desta vez de forma pouco hábil, Salem se redime. É nos instantes finais que, espero, esteja a essência do que a série deverá ser. São três os momentos que marcaram essa redenção.
Um momento de suspense e angústia, quando Giles Corey é levado ao cadafalso e torcemos para que John chegue a tempo de salvá-lo. Única pessoa ingenuamente honesta na trama, também era um personagem real e sua morte aconteceu como foi mostrado na tela.
Um momento de revelação, quando Mary decreta que irão jogar os puritanos uns contra os outros e irão afogar a todos em seu próprio sangue. Afinal, não foi isso que aconteceu em Salem?
Um momento de genialidade, quando, debruçados sobre um acontecimento real, temos a capacidade de fazer uma pergunta que faz todo sentido. E se? E se… este foi o momento de Brannon Braga (criador da série) por que, afinal, não foi isso o que aconteceu? Os puritanos não foram afogados em seu próprio sangue? E se bruxas realmente habitaram Salem e induziram os conflitos contados de forma racional pelo saber histórico?
O Julgamento de Salem, eternizado pela história, tratado na racionalidade do fazer do historiador, é descrito como um episódio de histeria coletiva, no qual o medo das punições tanto terrenas quanto divinas, levaram um grupo de garotas a acusar de bruxaria uma parcela das pessoas que habitavam a vila. Potenciais depositários do diabo, essa gente serviu aos delírios de uma crença religiosa equivocada que, desde o século anterior, levara muita gente a alimentar as fogueiras na Europa.
Mas “e se” não tivesse sido assim? E se Cotton Mather tivesse razão? E se o demônio tivesse escolhido Salem para disputar com Deus a posse das imperfeitas almas humanas e Mary (enquanto ser representativo de qualquer pessoa de então) fosse o veículo que ele escolhera utilizar para realizar os seus propósitos?
Por esta via, a história promete e nela cabem até o conflito entre a bruxa malvada (Mary Sibley) e a ingênua donzela (Anne Hale, não tão ingênua assim!) se o tratamento dado for menos Estúdios Disney e mais uma produção de Tim Burton.
Podemos, enfim, aguardar com expectativa o segundo episódio pois agora sabemos que, na Salem de 2014, bruxas existem e elas tramam porque querem vingança, uma parte da Terra, e porque o demônio deseja aprisionar almas das quais possa se alimentar e perpetuar sua existência, desafiando o Criador.