Sessão de Terapia – Semana 2
20/10/2013, 12:42.
Carla Heitgen
Reviews
Se você ainda vai ver a maratona, melhor voltar depois. Contém revelações sobre o enredo.
Mais uma semana de trabalho (árduo) para Theo. Mais cinco dias para seus pacientes confrontarem (ou fugirem de) seus fantasmas. Um passo a mais para o espectador se envolver e se identificar com suas histórias. São vivências muito diferentes entre si e ao mesmo tempo têm muito em comum e uma delas é que toda existência tem um ciclo, muitas vezes aquele no qual nós mesmos nos colocamos. Vamos acompanhar quais são os ciclos destes personagens?
Carol, segunda, 16 h
Cliclo: raiva – recusa de ajuda – solidão
Carol chega à sessão visivelmente tensa. No meio de uma briga com seu ex-namorado, Tony, a bateria do celular acaba, interrompendo a conversa dos dois. O nervosismo de Carol aumenta não pelo corte abrupto do diálogo em si. O que busca no rapaz é abrigo, conforto e aproximação, já que “se você está com ele, está bem”, uma clara referência à fase em que se encontra: a negação de sua grave doença. Tony é o único além de Theo que sabe da enfermidade da estudante de Arquitetura. O que mais irrita Carol é que seu amor já está com outra pessoa. A vida do ex-namorado segue em frente, enquanto a dela, bem, ela se sente como que com uma sentença de morte nas mãos. Acostumada a ter alguém que “sempre consegue consertar as coisas”, Carol entende que é a única responsável pelas decisões que toma, inclusive se continua a terapia e se vai, finalmente, aceitar o tratamento médico que sua condição exige. Ela e Theo se aproximam em uma questão: assim como Carol acreditava que Tony poderia salvá-la, o terapeuta toma para si a responsabilidade de cuidar dela, evitando que mais um paciente morra por omissão de sua parte.
Otávio, terça, 9 h
Ciclo: apego – pânico – impotência
Mais uma vez, vemos um paciente colocar no outro as respostas que busca para suas próprias questões. Otávio menciona sua preocupação com o retiro espiritual no qual a filha imergiu e divide sua intenção de ir até Goiás para buscá-la. Para o terapeuta, entretanto, este cuidado exagerado reflete a dificuldade de Otávio de desapegar da moça e, consequentemente, do trabalho que está consumindo sua saúde. Para o pai, os longos e-mails que a filha escreve são um “pedido de socorro”. A elaboração desta missão de resgate, observa Theo, ocorre uma semana após de sua crise de pânico. Otávio se recusa a falar sobre o assunto e revela ter tido outro ataque “mil vezes pior” do que o primeiro. Aconteceu quando ele estava parado no engarrafamento, perto de um cemitério. A lembrança de ter perdido o irmão de 23 anos em um acidente de carro o faz refém do presente pelo medo que tem de morrer da mesma forma. Otávio pede a Theo uma solução rápida para seu problema, o que significa tomar um remédio que o permita seguir normalmente com sua vida. Conversar sobre seus problemas? Nem pensar. Theo volta a lembrar ao empresário que o que ele precisa é admitir que não pode ter controle sobre tudo: nem sobre o trabalho, nem sobre a filha e nem sobre o poder da empresa que está fugindo de suas mãos. Mas pelo menos em uma coisa ele tenta demonstrar domínio: é Otávio quem encerra a sessão, lembrando a Theo que o tempo acabou.
Paula, quarta, 11 h
Ciclo: relacionamentos familiares conturbados – culpa – controle
É muito interessante como as tramas dos pacientes de Theo se interligam, embora não de forma aparente. Assim como Otávio, Paula é pragmática e não reconhece a importância de seu histórico familiar. Quando toma conhecimento de que as chances de engravidar estão diminuindo se vê diante de um dilema que nunca pensou ter. É nesta semana que percebemos como Paula segue o modelo de seu pai. A advogada rejeita comparações com a mãe, que foi embora quando ela tinha 3 anos de idade e a única coisa que fez pela filha foi escolher seu nome. O pai é alvo de toda admiração, respeito e carinho. Seus olhos brilham quando fala dele. Durante a sessão, Paula recebe um telefonema (do pai) e Theo e o público percebem que a relação deles é, na verdade, de controle, uma vez que se sente incapaz de dizer “não” para ele. Até quando engravidou o pai lhe agendou um aborto. De onde vê, não quer ser mais uma mulher a decepcionar o homem que se sacrificou para criá-la. Enquanto Carol delegou a responsabilidade por sua felicidade para o ex-namorado, e Otávio busca aliviar sua insegurança salvando a filha, Paula condiciona sua satisfação ao agrado do pai. Além disso, acusa a nova esposa dele de manipulá-lo, um jogo de poder em lugar de afeto. Paula, a chefe que sente prazer no poder, não é dona nem de suas vontades.
Daniel, quinta, 14h
Ciclo: choro – mãe contar para o pai – briga entre os pais
Daniel está no meio do divórcio dos pais. Quer dizer, no meio mesmo: entre as brigas, assuntos mal resolvidos e rancores dos dois. O menino se irrita quando Theo diz que sensibilidade é um tipo de inteligência, pois acostumou-se a se sentir ofendido com palavras. A professora o considera ausente e preguiçoso. Mais tarde o pai se refere a ele (sem que o filho ouça) de bebê chorão. Os colegas de escola, por sua vez, passam um bilhete para toda a turma avisando para chegarem antes de Daniel em uma festa de aniversário se quisessem comer doce e uma professora já o esqueceu em uma sala, onde ele ficou sozinho por quatro horas. A autoestima do menino está tão abalada que ele finge ir ao aniversário, mas fica escondido no jardim e é alvo de uma estranha e cruel brincadeira. Os pais, enquanto esperam a hora de entrar para a sessão, conversam mais amigavelmente e até chegam a flertar. Ana, a mãe, sugere que João, o pai, volte para a casa. Ele recusa a proposta. Em uma última tentativa, ela pede que o faça pelo filho, sem sucesso. Mais uma vez, os dois terminam a sessão brigando sobre quem vai levar Dani para casa e para ele, dormir no apartamento do pai seria admitir que a separação não tem volta. É muito fácil se envolver com sua história e seu jeito direto de falar. Ficamos torcendo para que Theo consiga ajudá-lo a passar por esta fase e que como tudo que chega ao fim, passe pelo luto necessário e siga em frente.
Theo, sessão com Dora, sexta, 17 h
Ciclo: raiva – culpa – responsabilidade pela vida dos outros
O que é mais intrigante nas sessões que Theo tem com Dora, sua terapeuta, é o extremo deboche e ironia que ele utiliza para mascarar seus sentimentos, ou seja, Theo é um ótimo psicanalista, se o paciente não for ele mesmo. Assim como Otávio, Theo quer uma solução imediata para o seu atual problema, no caso o processo que o pai de Breno abriu contra ele. O que pede é um parecer de Dora, como sua analista, afirmando que ele não foi responsável pela morte de ninguém. Mas Dora o conhece, e sabe que pode até escrever algo, e mesmo assim nenhum papel convencerá o próprio Theo de que não pode salvar seus pacientes. A pergunta-chave para Theo é: de que(m) você tem raiva? De Breno, por ele ter cometido suicídio e prejudicado sua carreira e capacidade de discernimento? Dele mesmo, por não ter sido capaz de salvar o policial? Ou da sua mãe? Theo ri do rumo que Dora propõe. Aos poucos sabemos que sua mãe tinha depressão, e o menino cuidava dela como uma frágil boneca de porcelana. O dia mais marcante de sua vida foi um Natal que passou na casa de uma amiga. O menino compartilhou pela primeira vez de momentos felizes em família, ainda que não a dele. Ao voltar, a mãe havia tentado se matar e até hoje sente-se culpado por deixá-la e revolta-se por ela ser, a seu ver, fraca, ao contrário da mãe de Míriam, a “mulher mais forte do mundo”. Para Theo, ela permaneceu feliz (e viva) pelos filhos. Em um momento da conversa, a câmera se afasta de Dora muito lentamente até chegar a Theo, sem cortes. Na hora pareceu estranha uma cena como aquela, mas fez sentido, pois sentimos a distância entre a percepção da verdade por parte dele e seu estado emocional atual.
É como dizem, de perto todos temos problemas, uns mais evidentes do que outros. Theo, pelo menos, aceitou voltar à terapia e viu que colocar a culpa na mãe não era um clichê da Psicanálise, mas uma verdade que ele não havia admitido para si. E cada semana, um véu cai, revelando mais de cada personagem. E, porque não, de nós também.






