Elementary continua a cavar fundo no passado de Sherlock Holmes (Jonny Lee Miller). Se, nas histórias clássicas, Holmes era um homem misterioso, assustadoramente frio e disciplinado – como a gente imagina que um verdadeiro gênio, do alto de sua inteligência, seja -, o detetive da CBS nada mais é do que uma vítima da (cruel) sociedade. Um gênio incompreendido.
No episódio da última semana, Poison Pen, Holmes e Watson investigavam o assassinato de um poderoso executivo por envenenamento. O homem foi encontrado por uma garota de programa estendido no chão, usando uma roupa preta de látex. Quase um fetiche entre os roteiristas hollywoodianos (American Horror Story manda beijos). A primeira desconfiança recaiu sobre um funcionário subalterno da vítima, que, depois, confessou que encontrou o chefe morto no apartamento, colocou a vestimenta “imoral” no defunto e chamou uma prostituta, tudo para que a empresa não tivesse que desembolsar uma alta quantia à família do homem. Acreditaram nele e, desde então, ele sumiu do episódio. Simples assim.
Em seguida, Sherlock descobre que a babá dos filhos do assassinado havia mudado de identidade e que ela era, na verdade, uma ex-acusada de matar o próprio pai, que abusava dela, pelo mesmo tipo de envenenamento muitos anos atrás. E foi aí que começou a viagem ao passado de Mr. Holmes. O caso da moça aconteceu quando o detetive era ainda um adolescente, em Londres; um menino mais inteligente que os colegas de sala e que, também sofrendo abusos por parte deles, resolveu trocar correspondências com a acusada americana. E por causa de uma tatuagem que a moça disse ter feito em uma das cartas, Holmes a reconheceu no caso de agora. No começo, achei tudo isso muito conveniente e um pouquinho forçado, mas, com o passar do episódio, conhecemos uma face ainda mais sentimental de Sherlock (ou seria, coração?) e vi que tudo fazia era muito sentido.

Durante todo o tempo em que trocaram correspondências, Holmes sabia que a moça havia, de fato, assassinado o pai. Mas porque o homem era um monstro, Sherlock a compreendia e até a protegia (o Sherlcok da CBS é extremamente protetor) de tal crime. Ele nunca revelou sua desconfiança a ela até os dias de hoje, quando, diante das fortes evidências contra ela, o detetive precisou abrir o jogo. Depois, descobriram que a vítima de agora, o executivo poderoso, abusava sexualmente do filho de 17 anos e que o jovem matou o pai. A babá, disposta a proteger o rapaz, quase como uma mãe, decide confessar um assassinato que sequer cometeu. E fim de história.
Fiquei com dó da moça ir presa e o episódio ter terminado com essa “injustiça”, com a NYPD e o próprio Sherlock engolindo uma mentira, deixando o rapaz solto e a babá “inocente” presa. Mais tarde, entendi que ela estava, na verdade, pagando pelo assassinato que cometeu contra o pai no passado e que, para ela, seria um conforto, um consolo, finalmente, ser cobrada pelo que fez. E talvez Holmes entendesse isso.
O caso foi complexo, extremamente emocional e bem “amarrado”. A gente se envolveu com aqueles personagens como se os conhecêssemos há anos, como se fossemos íntimos deles, íntimos dos sentimentos e da história deles. A atriz Laura Benanti (Go On, Royal Pains, Law & Order: SVU) foi incrivelmente competente ao desempenhar o papel da babá/assassina e merece ser citada pelo feito.
Já o Holmes é nos apresentado, cada vez mais, como um ser humano. Uma pessoa sofrida, que utilizou-se da dor para desenvolver seu talento – enquanto, na versão britânica e nas histórias de Conan Doyle, o detetive se colocava em situações de sofrimento para compreender algumas coisas. Havia algo de quase sobre-humano nisso. Acho incrível a experiência de ver um personagem tão “acima da humanidade” se aproximar da gente desse jeito, de podermos, em certos pontos, nos reconhecermos diante dele. Obrigada, CBS, por nos proporcionar essa riqueza enquanto espectadores.

A Watson é outra pessoa na atual temporada. Se, no primeiro ano da série, ele era mulher frágil, que havia perdido a profissão (e, consequentemente, a identidade, quem ela era), na nova temporada, ela é uma mulher forte, determinada e bem sucedida. Fiquei perplexa, primeiro, com a observação dela sobre a tatuagem da babá, de que Holmes reconheceu a moça por isso e de que ela não tinha o desenho na época da morte do pai. Segundo, quando ela encontrou o notebook escondido no escritório da outra vítima. Ela realmente aprendeu o trabalho e, olha, pelo andar da carruagem, vai superar seu mestre Holmes. O que reflete o papel da mulher na sociedade moderna, que é a que vivemos. Quando os roteiristas de Elementary, antes do programa estrear, prometeram uma versão moderna dos contos de Sherlock Holmes, isso não significava apenas transformar “o doutor” Watson em mulher e Holmes em um ex-viciado.
Elementary contextualiza e reflete a sociedade atual em suas histórias de forma competente e convincente e é por isso, apenas por isso, que o seriado se mantém um sucesso entre o público. Diante de mudanças tão grotescas na base da história, as pessoas não engoliriam uma “quebra” tão grande com uma das histórias mais clássicas da literatura se essa “quebra” fosse outra coisa, senão, genial. Eu sei que sempre uso essa palavra para falar de Elementary, mas é isso que a série é: GENIAL!
Desculpem-me os fãs de Sherlock, da BBC, que não conseguem gostar da versão americana. Cumberbatch é um Sherlock mais próximo ao que Doyle criou? É. Ele é mais Holmes do que o Lee Miller? Admito, é. Sherlock é mais refinada? Pode até ser. Mas Elementary, dentro do que se propõe a fazer, dentro de seu gênero, é espetacular. E ninguém pode dizer o contrário – até pode, porque liberdade de expressão deve sempre prevalecer, mas vejam uma temporada inteira da série, pelo menos; não se pode julgar um seriado como esse por dois ou três episódios, é preciso acompanhar o crescimento dos personagens, conhecer o passado deles e chegar até o ponto onde Irene, ahá, é Moriarty.
O quarto episódio da segunda temporada da série só comprova uma coisa: Elementary conquistou uma linearidade e chega a ser difícil acreditar que ela apresentará alguma “baixa” daqui para frente. Desde o retorno, Elementary tem sido o que sempre foi… Sim, vocês sabem… Genial. Genial, meus caros leitores.
P.S.: Amei os óculos de grau novos da Watson!