Quando a Ana fez as primeiras impressões de Faking It e comentou comigo sobre o que havia achado da série, eu fiquei bastante curiosa com o plot. Mais: fiquei questionando como os roteiristas conseguiriam levar tal farsa, a que dá nome à série, adiante sem fazer com que a série se repetisse a cada episódio. E foi com essa curiosidade em mente que assisti, em uma mini-maratona, os seis primeiros episódios da série em um sábado à tarde.
Foi amor à primeira vista.
A comédia da MTV conseguiu, ao longo da curta temporada de 8 episódios, se reinventar a sua maneira. O que parecia ser apenas uma história boba sobre duas adolescentes que resolvem fingir serem um casal conseguiu tratar de temas mais profundos e densos, e sem perder a leveza. E se as tramas paralelas ainda precisam se desenvolver para fazer com que a série seja muito bacana como um todo, Amy e Karma – e seus dramas, encontros e desencontros – tornam tudo delicioso de acompanhar.
Já no piloto nós descobrimos o quanto Karma Ashcroft quer ser reconhecida em seu pequeno núcleo social. E se o plano dela de fingir uma cegueira repentina não deu certo, a oportunidade de ouro se apresentou quando Liam – por quem se apaixonou à primeira vista – supõe que ela e Amy são um casal. Uma saída do armário forçada – e falsa – ocorre, e a partir daí começa o fingimento.

E Karma, alheia aos sentimentos da outra metade do casal, passa a temporada inteira – ou quase isso – apenas fingindo, enquanto esforça-se para conquistar o coração de Liam. E se as decisões equivocadas da garota fazem com que uma certa birra nasça em relação à ela, é preciso lembrar que ela desconhece os sentimentos de Amy, a quem ama profunda e sinceramente.
Se a insistência dela em falar do Liam o tempo todo, em um contexto normal de melhores amigas, já poderia ser considerada chata e um pouco egoísta, ao percebermos a dor que isso causa para Amy não conseguimos deixar de classificar a atitude de Karma como muito egoísta e bastante injusta. Contudo, no final da temporada, também é inevitável não sentir pena de Karma e da situação que ela vivencia: além de descobrir que o amor de Amy por ela não é bem igual ao seu (e não saber como lidar com a situação), ela é dispensada por Liam (com quem perdeu a virgindade), que descobre toda a história do fingimento. Será preciso muito colo de mãe para a situação ser contornada.
Do outro lado do esquema do fingimento está a personagem mais amada da série: Amy Raudenfeld. E é ela quem mais sofre com tudo que acontece na temporada. Depois do beijo que trocou com Karma, Amy descobriu que pode ter sentimentos românticos pela melhor amiga. E é muito bonita a jornada dela na primeira temporada. Se em um primeiro momento ela tenta negar a natureza dos seus sentimentos, com a ajuda de Shane ela passa a aceitar melhor sua sexualidade e seus sentimentos por Karma. A história de Amy é, além de bonita, importante, já que pode ajudar tantas pessoas que passam pela mesma situação e encontram problemas em lidar com ela. Um grande acerto da MTV.
Só que a proximidade com Shane, um gay bem resolvido e disposto a ser seu “padrinho”, não diminui seus problemas. Pelo contrário, os aumenta, já que é Shane quem coloca na cabeça da loira que o amor romântico pode ser recíproco. Só que não é…
… ou é? Depois do episódio do sexo à três eu tive dúvidas em relação aos sentimentos de Karma. Cheguei a pensar que ela também curte Amy, mas não quer admitir isso. Só que depois que ela passou a se relacionar escondido com o Liam eu descartei a hipótese. Agora, depois da season finale, eu realmente não sei o que pensar. Apesar da negativa de Karma, acho que ela pode, sim, acabar descobrindo que é apaixonada por Amy.

Creio, inclusive, que essa vai ser uma das tramas da 2ª temporada. Torço pra que a Amy dedique menos tempo e energia à Karma, quem sabe até encontre uma namorada. Seria um teste de fogo para Karma e seus sentimentos. Isso se os roteiristas não escolherem o caminho errado do envolvimento de Liam e Amy. Até dá pra entender o que aconteceu na finale (quer dizer, embora eu torça pra que a Amy tenha conseguido parar tudo antes que fosse tarde demais), mas não seria legal ver isso se prolongar. Já teremos que lidar com as consequências desse ato, que serão bem ruins pra Amy e Karma. É o suficiente.
Mas nem só – embora quase – de Amy e Karma vive Faking It. E espero que na segunda temporada da série (que terá 10 episódios, dois a mais que a 1ª) os outros personagens sejam melhor desenvolvidos, assim como as relações das protagonistas com eles. E quando falo dos outros personagens, quero dizer os outros que não Liam. O garoto, até por causa do envolvimento com Karma, recebeu mais atenção, e inclusive teve histórias próprias, que não envolviam o triângulo amoroso. É o suficiente.
Shane é um personagem bacana, e funciona muito bem em parceria com a Amy. E foi bem legal vê-lo interagindo com Lauren também, o que demonstra sua versatilidade. Essa é outra personagem que tem um potencial enorme para ganhar histórias próprias mais legais, já que ela funciona bem no núcleo “escola” e no núcleo “família”. E vamos combinar: toda boa trama adolescente precisa de uma Regina George, se é que vocês me entendem.
Por falar em família, seria interessante saber mais do pai perdido da Amy, e vê-la se relacionando mais e mais com sua mãe e seu padrasto. Nessa temporada assistimos um pouco de interação entre eles, mas quase sempre ela se limitou à mãe censurando a filha. Seria bem bacana ver Amy recebendo um pouco mais de suporte em casa. Porém, eu entendo que a série funciona como uma espécie de espelho da sociedade. E a família de Karma é toda fofa para lidar com o “lesbianismo da filha”. Então, é Amy quem segura o rojão do reflexo da parte idiota e preconceituosa da sociedade. Em resumo: a Amy só se ferra.
Por fim, preciso dizer que a série tem vários elementos que a tornam amável: as falas de Amy, sempre sarcásticas e adoráveis; as referências da série à outras séries, filmes e à cultura pop; os planos e as ideias sempre tão mirabolantes e furados de Karma; a trilha sonora bacaninha; o elenco bonito, carismático e super divertido; o humor fácil e ágil; a naturalidade com que as questões da diversidade sexual são tratadas; a importância do tema por trás da série; os personagens de apoio legais – embora ainda não bem desenvolvidos; e muito, mas muiiiiiito potencial para crescer. Todos esses elementos, juntos, fazem com que os vinte e poucos minutos de episódio passem voando. E fizeram com que eu esperasse a renovação da série como há muito tempo não esperava por algo. Por que quando nos apaixonamos por uma série adolescente, a nossa idade passa a não ser referência para mais nada.
Resumindo: Faking It é a típica comédia leve mas com conteúdo, boba mas relevante, adolescente mas apaixonante. E em uma época de mais do mesmo, o seriado consegue NÃO ser farinha do mesmo saco. E esse elemento, sozinho, já deveria fazer com que a série garantisse vida longa e próspera.