
O meu colega Bruno Carvalho, do Ligado em Série, é um polemista. Aprendi a curtir as polêmicas dele. Mas ele também me tira do sério. Especialmente no dia que foi anunciado o cancelamento de Raising the Bar. Escreveu no Twiter que a série já ia tarde. Sério, quando ele disse isto o sangue subiu.
Dei o desconto ao fato de que o Bruno pulou fora de Raising the Bar lá atrás, no início da primeira temporada. E a série mudou como da água para o vinho de lá para cá. O Bruno também é fã de Boston Legal. E é covardia esperar de qualquer outra série de tribunal o discurso liberal, a crítica política e o bom humor das séries do David E. Kelley.
O que o Bruno não sabe é que Raising the Bar foi aos pouquinhos se tornando uma bela série. Também faltou sensibilidade para ver que a proposta era outra (bem diferente do modelo Kelley e do modelo Law & Order) e o objetivo era revitalizar um gênero que está em crise (reparem, nunca tivemos tão poucas série de advogados na TV).
Raising the Bar veio para ser algo como uma ER da advocacia. Mostar como o sistema judiciário toma conta da vida daquelas pessoas, de forma que não sabemos mais o que é pessoal e o que é profissional. Descobrimos ainda como é difícil manter as relações de amizade (e amor) quando os amigos (e amantes) estão em lados opostos do tribunal.
A série cresceu muito na sua segunda temporada. O elenco se entrosou e a discussão jurídica passou a fluir com mais naturalidade na tela. Os casos se tornaram mais emocionantes e pelo menos dois arcos foram de tirar o fôlego (o fim trágico do casamento de Bobby e as aparições do policial corrupto Tim Porter). Os personagens foram ganhando tridimensionalidade – minha favorita é a juíza Kessler de Jane Kaczmarek, uma mulher poderosíssima, mas incapaz de encontrar um namorado. E, claro, quem não viu, perdeu: Jerry e Bobbi enfim juntos, na cena de sexo mais caliente da temporada.
(E a série, é preciso admitir, tenteu ainda dar uma aproximada de leve no estilo de David E. Kelley: o excêntrico juiz Farnsworth, novidade na temporada, é o típico personagem que cairia como uma luva em Ally McBeal).
Raising the Bar tem seu problemas, claro. Como todo drama do Steven Bochco pós-Nova York Contra o Crime, ela não soube se tornar relevante (e isto, para um seriado de TV por assinatura, é brutal – a série pode dar traço de audiência, mas se tiver prêmios ou o carinho da crítica, ela se mantém no ar). Apesar da proposta bacana de confrontar promotoria e defensoria, a série acabava caindo no maniqueísmo – a trama é conduzida de forma a nos fazemos gostar mais do Jerry do que do Marcus, mais da Bobbi do que da Michelle, mais da Whitman do que do Balco.
Apesar dos problemas, eu não creio que tenha sido por estes motivos acima que o show chegou ao fim. O problema foi Jerry Kellerman. Simples assim: infelizmente não há lugar na TV para um protagonista como ele. Um homem virtuoso, idealista, apaixonado.
Esta noite, às 22h, no AXN, vai ao ar o episódio Oh! Say Can You Pee?. Falta só uma semana para o episódio final. Meu colega disse que vai tarde. Eu digo: que pena. Clique aqui para continuar a leitura »