Destes 11 anos de TeleSéries vi vários canais de TV por assinatura investirem em produções nacionais de ficção. Alguns foram bem (a maioria não tão bem). Mas mesmo aqueles programas que surpreenderam, eles acabaram bem sucedidos apenas parcialmente.
A minha percepção é de que estas séries nacionais não conseguiram transcender os limites da tela de canal. As séries não repercutem. Elas não viram tema de discussão nas redes sociais. Não se fala delas nas conversas de bar e no papo de bebedouro. Elas até ganham lá uma meia página no dia da estreia nos suplementos culturais dos jornais ou nas revistas semanais, mas depois nunca mais ganham a atenção da imprensa.
Acho que isto acontece um pouco porque não existia uma massa de assinantes de TV paga grande o bastante pra reverberar este tipo de conteúdo. Mas hoje já somos 17 milhões de famílias assinantes de Net, Sky e cia. Sem contar os Netgatos. Já deveria ser diferente.
Acho que o primeiro seriado nacional de TV paga a romper um pouco esta barreira foi Sessão de Terapia da GNT. O que é particularmente triste: além do texto ser estrangeiro, a série tem formato de telenovela.
A HBO, apesar de investir constantemente no gênero, parece que tem obtido resultados cada vez mais tímidos. O grande sucesso ainda é Mandrake, a primeira aposta, lá de 2005. Talvez por ter um ator Global (Marcos Palmeira), ou por apostar num texto consagrado (Rubem Fonseca) ou simplesmente por ter ousado num programa de episódios fechados – quando a maioria das produções latinas acabam caindo no formato do drama serializado.
Falta uma grande ideia para estas séries brasileiras que estão cada vez mais aparecendo na TV. Mas falta também marketing. Falta investimento dos canais na promoção ou canalizar este investimento para que os shows repercutam mais.
Blogueiros que normalmente são convidados a promover séries estrangeiras raramente recebem DVDs de para divulgação de alguma série nacional (aliás, as séries da HBO sequer são lançadas me DVD, o que impede que o programa se perpetue). Não conheço também nenhum jornalista que tenha sido convidado pra visitar um set de gravação ou tenha recebido um convite pra uma exclusiva com a Natália Klein ou a Denise Fraga ou a Fernanda Young.

Mas eis que temos uma série sobre marketing. E marketing de sexo! Agora tudo vai mudar.
O Negócio, a nova série da HBO, produzida pela Mixer (que tem no portfólio a infantil Julie e os Fantasmas e a adolescente Descolados), é direta no ponto: aborda o universo da prostituição de luxo, apresentando um grupo de mulheres que se unem para propor uma nova forma de monetizar, dispensando os cafetões. Rafaela Mandelli e Juliana Schalch são as protagonistas (ainda há uma terceira atriz, Michelle Batista, que não aparece no primeiro episódio, o que comprova a minha tese que roteirista brasileiro não sabe escrever piloto), e são lindas, atraentes e talentosas – com texto bem ensaiado, na maior parte do tempo elas soam naturais.
Com um tema provocador desses, um elenco pouco conhecido, mas promissor, e finalmente uma forte divulgação por parte da HBO – amplamente promovida em promos provocativos, com eventos de lançamento na imprensa e um press kit bacana -, parece que O Negócio tem tudo para deslanchar. Agora vai?
Parece que não. O Negócio não faz feio na primeira visualização, mas também não prende, nem diz a que veio.
O roteiro nos coloca na posição de quem está dentro do negócio (prostituição) e descobre um novo olhar sobre ele (o marketing). É um plot curioso, porque o natural seria o contrário – acredito que os telespectadores da HBO tenham mais curiosidade pela prostituição do que pelo marketing! Mas é uma escolha e só ao longo das semanas será possível ver se ela rende ou não.
A série também não perde tempo em fazer julgamentos morais. O que é uma faca de dois gumes. Quando os dramas adultos estouraram na TV, nos anos 2000, ainda existia esta preocupação – as dificuldades financeiras que levam Nancy a se tornar traficante em Weeds; o código de honra que leva Dexter a se tornar um assassino de assassinos e por aí vai. Aqui as mulheres querem é ganhar dinheiro. Com isto se tem um show direto, mas com uma premissa superficial.
Outra curiosidade sobre O Negócio é que, apesar da temática, não temos nenhuma cena de nudez no primeiro episódio. Sério, nada. Achei curioso, porque isto justamente foge do padrão HBO. (E a série foi ao ar justamente no mesmo dia que o Alexander Skarsgård tomou banho de sol peladão em True Blood). Não acho que uma série adulta precise de nudez, longe disto. E entendi rapidamente porque não teve. Assistindo ao piloto me dei por conta do “negócio” arriscado que é esta série: ela quer ser um drama adulto da HBO, mas basta uma escorregadinha pra virar um soft porn do Cinemax ou do Multishow.
Em resumo, pra ficar na linguagem da série: a HBO acertou em 3 dos 4 Ps. A praça é a melhor, o preço é justo, a promoção foi ótima. Mas O Negócio ficou devendo no produto.
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O Negócio estreou neste domingo, 18 de agosto na HBO. Os episódio inéditos irão ao ar nas noites de domingo, às 21h. O episódio piloto pode ser assistido gratuitamente pela internet, na página www.hbomax.tv/o-negocio.