Reza a lenda que “a mágica acontece quando você sai da sua zona de conforto”. Robert e Michelle King parecem ter levado este ditado às últimas consequências na já épica quinta temporada de The Good Wife. Mas, após uma temporada perfeita, a pergunta que não queria calar era: como seguir adiante? É possível que a série apresente uma temporada tão ou mais espetacular do que a sua antecessora? As expectativas eram altas, e a missão, difícil e desafiadora. Mas, ao fim destes 22 episódios – que, aliás, passaram com uma velocidade assustadora –, podemos respirar aliviados.
Em que pese o descontentamento de grande parte do fandom da série com o arco político e a candidatura de Alicia à promotoria, devo confessar que não faço parte deste grupo. Na minha opinião, The Good Wife nos presenteou com mais uma temporada primorosa, provando de uma vez por todas que a ousadia e a coragem de seus roteiros vieram para ficar. Será?
Se, por um lado, a quinta temporada usou a morte de Will para jogar tudo o que nos era familiar para o alto e, assim, reinventar-se de maneira brilhante, por outro, a ousadia a que me refiro aqui na sexta temporada diz respeito à evolução de Alicia, que por deliciosos episódios durante sua campanha política, teve sua imagem de “boa esposa” cuidadosamente desconstruída. Cansada de ser coadjuvante na ascensão política de Peter, Alicia, ainda que inicialmente hesitante, agarrou com unhas e dentes a oportunidade de ocupar o cargo que um dia foi de seu marido.
Ela, então, foi à luta. E imersa nela, acabou inadvertidamente vendendo sua alma para um diabo. Ou vários. A despeito de seus valores, princípios e boas intenções, “Santa Alicia” aprendeu com quantos aliados se vence uma eleição, ainda que entre eles estejam um porco homofóbico (porém milionário), Lemond Bishop, Colin Sweeney, entre outras figuras de caráter duvidoso. Navegando em águas turbulentas e até então desconhecidas, Alicia fez o que pode, como pode, fazendo concessões morais e conexões suspeitas a torto e a direito. Sua vitória foi esperada, festejada e… efêmera. Em (mais) uma reviravolta digna de House of Cards, Alicia se viu mais uma vez como o dano colateral da falta de escrúpulos alheia. Cortesia do Partido Democrata, que “jamais esquecerá seu sacrifício”.
Acuada por seu próprio escândalo político, e acusada de cometer o mesmo crime de seu marido.
Esta manobra do roteiro foi tão maravilhosa quanto cruel, e ainda serviu para nos mostrar uma nova faceta do relacionamento de Alicia e Peter: quando tudo estava perdido, a cumplicidade entre “marido e mulher” salvou o dia. O abraço e o choro compulsivo e frustrado de Alicia ao final de Winning Ugly foi uma das minhas cenas favoritas de toda a temporada.

Mas, até chegarmos a este ponto decisivo da tortuosa jornada da boa esposa, passamos por alguns episódios memoráveis. The Good Wife e sua maravilhosa mania de trazer ao roteiro escândalos e controvérsias da vida real que pululam em manchetes de jornais mundo afora. Em The Debate (6×12), Chicago se transformou na pequena Ferguson, Missouri, e a história de Michael Brown – ou, neste caso, Colin Willis – estava novamente diante de nossos olhos. Em Undisclosed Recipients (6×17), o vazamento dos e-mails do escritório nos remeteu imediatamente ao escândalo da Sony Pictures – e rendeu momentos suculentos e diálogos épicos. Já em Loser’s Edit (6×18), o roteiro novamente buscou inspiração na realidade, e foi a vez de vermos Diane Lockhart – Christine Baranski maravilhosa! – brilhar em um caso que expôs a homofobia, a intolerância e a imensa hipocrisia do Partido Republicano de R.D. Os legisladores do estado da Indiana poderiam aprender uma lição ou duas com Diane sobre liberdade religiosa e intolerância, não é mesmo? Aliás, as interações entre R.D. e Diane são sempre deliciosas, seja numa discussão passional sobre o porte de armas no meio de muita neve durante um dia casual de caça, seja num julgamento hipotético sobre o preconceito e a intolerância.
Mas o título de episódio favorito desta temporada (e um dos favoritos de toda a série) vai mesmo para Mind’s Eye (6×14). Nele, os roteiristas nos presentearam com um passeio delicioso pela mente de Alicia. Viajamos para dentro da cabeça da nossa protagonista e passamos o dia ali, vendo seus pensamentos tomarem forma e ouvindo tudo aquilo que ela não disse. Will, Peter, Jon, Finn, Grace, Zach e até mesmo Kalinda – quem diria! – passaram diante de nossos olhos enquanto Alicia refletia, ansiosa, sobre seu próprio sentimento de culpa. Apesar de seus conflitos internos, ela formou alianças muito perigosas, e sabia disso. O preço foi alto.
Depois da renúncia, fiquei receosa sobre os rumos que a série tomaria. Alicia poderia voltar para a Florrick, Agos & Lockhart? Certamente. Mas essa seria a decisão mais acertada criativamente? Não. E por um motivo bem simples: ao longo desta sexta temporada, vimos o escritório que Alicia e Cary lutaram tanto para estabelecer virar uma espécie de filial da falecida Lockhart & Gardner. David Lee está aí e não me deixa mentir. O mal-entendido criado pela possível volta de Alicia foi apenas mais um dos sintomas daquele clima de desconfiança já tão corriqueiro desde a virada de mesa da temporada passada. Mas um retorno agora seria o mesmo que voltar à estaca zero, jogar no lixo toda a ousadia que tanto amamos acompanhar. No fim das contas, é um antigo cliente que traz à tona o idealismo há muito deixado para trás pela nossa protagonista, mostrando a ela um possível caminho – um meio-termo, talvez.

E enquanto Finn recuou (e parece ter dado um adeus definitivo à série), Canning – of all people! –, perguntou: “Wanna partner?”, em um cliffhanger que foi tão inesperado e chocante quanto… Déjà vu? Impossível não lembrar da season finale da quarta temporada, quando era Cary quem estava do outro lado da porta, na mesmíssima situação. Sim, o arco se repete e, de uma forma ou de outra, Alicia terá de recomeçar pela terceira vez, agora com um desafeto. Será? Ou Canning só está fazendo isso para dar uma chance à sua esposa recém-demitida da Agos & Lockhart (Lockhart & Agos? Já não parece certo colocar o Florrick ali na frente…)?
Enquanto isso, a outra grande expectativa desta temporada – the elephant in the room – dizia respeito à despedida de Archie Panjabi, que vinha sendo cuidadosamente arquitetada pelo roteiro desde o início da temporada.
No fim das contas, vimos ambos os arcos de Kalinda se entrelaçarem para selar o destino desta personagem que um dia foi a mais subversiva e intrigante da série, mas que há tempos andava apagada e irreconhecível. Matamos a charada meses antes da finale, já que era bastante óbvio que ela não sairia impune de seu envolvimento com Lemond Bishop e da falsificação daquela evidência crucial para a exoneração de Cary. Entregar o traficante mais poderoso de Chicago numa bandeja para evitar que Diane e o próprio Cary sofressem as consequências era, àquela altura, a única saída. Sua despedida foi triste, amarga e definitiva, porém necessária.

Diante da promessa de uma cena derradeira entre Kalinda e Alicia, foi sofrível ver esta finale tão aguardada ser absurdamente ofuscada pelos bastidores da série. A mim, pouco importa o motivo da briga/picuinha/estranhamento/insira-aqui-o-substantivo-de-sua-preferência que supostamente aconteceu entre Julianna Margulies e Archie Panjabi. Mas, enquanto fã e espectadora da série, fiquei decepcionada ao perceber que os rumores eram reais: Julianna e Archie, de fato, não contracenaram no adeus entre Alicia e Kalinda. Foi uma despedida simples, bonita e despida de qualquer pieguice ou sentimentalismo numa mesa de bar, que encerrou uma era na narrativa de The Good Wife. A cena certamente cumpriu o seu papel, mas…. Nós merecíamos mais…
De qualquer forma, adeus Kalinda.
Mas agora… O que esperar da série em seu sétimo ano?
Peter candidato à Presidência da República, com o propósito de se tornar… vice. What? Não espero que o Senhor Governador se curve à desaprovação de Alicia, até porque, campanhas políticas são sempre muito bem-vindas em The Good Wife, senão por outro motivo, pelo menos para manter sempre relevante aquela criatura fascinante que atende pelo nome de Eli Gold. É justamente aí que o personagem de Alan Cumming brilha mais, e eu espero muitos momentos crocantes e deliciosos do personagem na próxima temporada. O que isso significará para a carreira de Peter? Só o tempo dirá. Mas…. Alguém realmente se importa com sua ascensão política? (e já que estamos falando de Eli, alguém pelamordeDeus traz a Marissa de volta? Por favorzinho?)
Outro ponto importante: a ausência de Kalinda será sentida, é claro, mas queria muito saber: por onde diabos anda Robyn? Li por aí que a atriz Jess Weixler anda fazendo testes e mais testes para novos pilotos da próxima fall season, mas não gostaria que Robyn simplesmente desaparecesse, ainda mais agora que ela poderia tornar o vazio deixado por Kalinda um pouco menos dolorido.
Também acho que não seria pedir muito um pouquinho de consistência quando o assunto são os interesses amorosos de Alicia. Seja com Will, Jon ou Finn, Alicia parece estar sempre gravitando perigosamente em torno de algum colega de trabalho. E com a exceção do nosso saudoso Mr. Gardner, nenhum deles pareceu ter merecido qualquer desenvolvimento… Jon e Finn apareceram como promessas para acalentar o coração solitário de Alicia, mas foram, na melhor das hipóteses… insossos. Além do mais, não vejo com maus olhos vê-la sozinha. Por que não?
Quanto ao recomeço de Alicia… não sei bem o que esperar. Uma parceria inusitada com Canning a esta altura do campeonato parece loucura, mas se aprendemos algo nestas duas temporadas é que, em The Good Wife, não existe zona de conforto capaz de estagnar estes personagens. Ainda que o roteiro tenha freado meio que bruscamente nesta reta final, diante da enorme capacidade do roteiro de contornar todos os percalços que lhe atiraram pelo caminho até aqui (e não foram poucos!), só nos resta confiar (quase) cegamente no futuro planejado por Robert e Michelle King.
Desta vez, a pergunta que não quer calar é: será a sétima temporada a última da série?
Até setembro!