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Estilo

Série retrata cinema da Boca do Lixo e tem explosão de cores em plena ditadura militar

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O senso comum nos leva a acreditar que, durante a ditadura militar, o Brasil viveu uma espécie de idade das trevas em relação às Artes – sobretudo, no cinema, que era fortemente censurado pelo regime. Não é bem assim. Foi justamente entre 1972 e 1982 que a “sétima arte” viveu sua “era de ouro” por aqui. E é exatamente essa a época que a série nacional Magnífica 70, em exibição na HBO, retrata. Por isso, o seriado é obrigatório para quem gosta e quer começar a entender a indústria cinematográfica brasileira, inclusive a atual. Não bastasse isso, a série ainda escancara toda a sua magnificência em qualidade técnica e estética.

Magnífica 70 se passa no ano de 1973, numa região conhecida como Boca do Lixo, perto da Estação da Luz, em São Paulo. O lugar foi um importante polo de cinema da época, tendo sido chamado de Hollywood brasileira, e produziu filmes que iam de desencontro ao Cinema Novo e às políticas públicas vigentes.  As famosas pornochanchadas eram feitas lá.

Na série, Vicente (Marcos Winter) é um funcionário público que trabalha no departamento de censura a filmes. Ele conseguiu o emprego graças ao sogro, o influente General Souto (Paulo Cesar Pereio). Vicente é casado com Isabel (Maria Luisa Mendonça), mas se apaixona pela atriz de pornochanchada Dora Dumar (Simone Spoladore). É por causa dela que ele se inicia na indústria cinematográfica, indo de censor a realizador de cinema. Já Dora entrou no negócio para ajudar o irmão, Dario (Pierre Baitelli), que acabou de sair da prisão e precisa de dinheiro.

A história é uma ficção e, portanto, nenhum personagem existiu de fato – embora exista uma menção a Zé do Caixão no episódio inicial! A série, no entanto, é fiel à essência da época, segundo os próprios integrantes da Boca do Lixo. Muito desse resultado se deve ao esforço dos diretores Cláudio Torres e Carolina Jabor, que chegaram a usar filmadoras Bolex (analógicas) na série, além de técnicas hoje quase ultrapassadas, mas que eram bastante comuns na época, como o “zoom in” e o “zoom out”. Algumas das cenas também possuem o charme do preto e branco.

As imagens em preto e branco reproduzem a ditadura militar

As imagens em preto e branco reproduzem a ditadura militar

CONTEXTO

Pode ser que você até já tenha ouvido o nome “Boca do Lixo” e não saiba exatamente do que se trata. Essa região no centro de São Paulo, hoje conhecida como Cracolândia, abrangia as ruas do Triunfo, Aurora, Santa Efigênia, Andradas e Vitória. O local era frequentado por jovens – amantes do audiovisual ou que estavam ali apenas pelo “negócio” – dispostos a fazer cinema de baixo custo na década de 70.  O Bar Soberano (na série, virou Bar Imperador) era o ponto de encontro entre essas pessoas e era nesse recinto que muitas das ideias de filmes e parcerias entre produtores, diretores e artistas, no geral, aconteciam.

Assim como o personagem Manolo (Adriano Garib) da série – que decide deixar o contrabando e é chamado, sem nenhuma experiência, para entrar para o cinema -, algumas pessoas eram convidadas, quase que aleatoriamente, para fazer filmes. A pessoa podia estar jogando futebol de várzea e, em uma conversa com alguém, surgir o convite.  Também era comum que essas figuras passassem por todas as funções na feitura de um filme até chegar ao cargo de diretor, por exemplo. Para os diretores da época, “a vida” era a maior escola de cinema do mundo.

Os filmes produzidos na Boca do Lixo eram feitos para entreter “o povo” e tinham um forte apelo erótico. As produções, no entanto, não agradavam a crítica especializada, que passou a chamá-las de “pornochanchadas”, no sentido pejorativo. Acreditava-se, na época, que esse movimento denegria a imagem que o cinema brasileiro queria construir, inclusive lá fora. A Boca do Lixo produzia diversos gêneros, que iam desde o drama, o faroeste, passando pelos filmes de ação, suspense e terror, quase sempre com apelo sexual.

Simone Spoladore e Júlia Ianina interpretam atrizes de pornochanchada

Júlia Ianina e Simone Spoladore  interpretam atrizes de pornochanchada

Durante a ditadura, o cinema foi utilizado estrategicamente pelos governantes, como forma de favorecer seus interesses. No final da década de 60, o governo criou a Embrafilme, empresa que tinha como objetivo promover o nosso cinema no exterior, incluindo em festivais. Depois, a Embrafilme passou a financiar, distribuir e até a coordenar as atividades cinematográficas na década de 70. Também foram criadas medidas de protecionismo à indústria cinematográfica nacional – foi nessa época que o cinema brasileiro viveu seu auge.

A exigência de um número mínimo de salas que exibissem filmes nacionais ajudou o cinema feito na Boca do Lixo. Porém, como é de se imaginar, os filmes produzidos ali não se sustentavam com os incentivos da Embrafilme e do dinheiro público. Apesar de não caírem nas graças dos críticos e dos governantes, o cinema da Boca do Lixo tinha grande êxito comercial, agradava aos espectadores, e conseguia se manter com os ganhos da bilheteria – algo um pouco distante da realidade do cinema nacional nos dias de hoje, que vive, em considerável parte (e isso aqui não é uma crítica), de incentivo público.

A fictícia Magnífica Cinematográfica, que fica na famosa Rua do Triunfo

A fictícia Magnífica Cinematográfica, que fica na famosa Rua do Triunfo

SÉRIE

Embora a história de Magnífica 70 se passe em São Paulo, as filmagens da série aconteceram majoritariamente no Rio de Janeiro, em um convento desativado. O prédio, de quatro andares, serviu de cenário para diversos locais, como a própria produtora Magnífica.

No seriado, é possível acompanhar todos os perrengues que os produtores passavam na época devido aos recursos escassos. Mas, ao mesmo tempo, isso garantia aos idealizadores trabalhar usando a criatividade, principalmente nos efeitos especiais. Em uma das cenas da série, por exemplo, queima-se pó de café para criar a impressão de neblina no cemitério.

Cena de Dora, no cemitério, tem metáfora

Cena de Dora, no cemitério, tem metáfora e preocupação estética

A vontade das atrizes em se tornarem grandes estrelas de cinema através das pornochanchadas – e assim aconteceu com muitas delas, na vida real – também está presente através das personagens Dora e sua rival, Helena (Júlia Ianina).

O seriado, aliás, é uma grande metáfora da vida. Segundo os criadores, a história se trata muito mais de personagens que tiveram suas vidas transformadas pelo cinema, quando finalmente puderam libertar desejos e vontades reprimidos por dentro (em suas próprias ditaduras internas), do que da indústria cinematográfica propriamente dita. Todas as personagens vêm de planos de fundo densos e angustiantemente dramáticos. No final das contas, Magnífica 70 faz valer o que Nietzsche dizia, “a arte existe para que a verdade não nos destrua”.

Vicente se liberta através do cinema

Vicente se liberta através do cinema

DECLÍNIO

A Boca do Lixo acabou junto com a ditadura, quando a nudez foi novamente liberada no cinema convencional. Além disso, a Embrafilme passou a oferecer maior incentivo ao cinema feito no Rio de Janeiro, com o qual a Boca do Lixo não conseguiu competir.

ELENCO 

Para contar uma história tão cheia de nuances, o seriado da HBO tem alguns dos melhores atores da TV brasileira. Marcos Winter, um ator de carreira discreta nos últimos anos, nos faz lembrar o quanto é bom apreciar o trabalho dele. Maria Luisa Mendonça é tão imponente que é impossível não reparar nela mesmo quando sua personagem não possui falas em cena. Num primeiro momento, quase não reconheci o Pierre Baitelli, precisei “dar um google” para ter certeza de que era ele mesmo. Está irreconhecível, diferente dos personagens “engomadinhos” a que acostumamos vê-lo. É, sem dúvidas, um dos melhores atores da nova geração. Quando se fala em veteranos, então, a série não é nada modesta. Joana Fomm e Paulo Cesar Pereio dispensam qualquer apresentação.

A MODA

A década de 70 é conhecida por não ter características definitivas na moda. A época ainda sofria influência do estilo hippie dos anos 60, com as calças bocas de sino e tecidos fluidos, mas já anunciava a moda disco, que se fortaleceria na década seguinte. Não por coincidência, Bee Gees e Abba explodiram nessa época. As roupas eram coloridas, usavam-se jaquetas de couro e bolsas com franjas, tamancos, estampas florais, futuristas e psicodélicas. Para compor o visual da série, a figurinista Ana Avelar percorreu diversos brechós paulistas e cariocas, optando por peças de “cores abafadas”.

A lolita Ângela (Bella Camero) tem ares de Bridget Bardot

A lolita Ângela (Bella Camero) tem ares de Bridget Bardot, símbolo sexual nas décadas de 50 e 60

Cores fortes e estampas futuristas marcaram os anos 70

Cores fortes e estampas futuristas marcaram os anos 70

Isabel é uma personagem mais sóbria. Detalhe para o telefone retrô...

Isabel é uma personagem mais reprimida, bem como suas vestimentas. Detalhe para o telefone retrô…

Cores quentes e a jaqueta de couro

Cores quentes e a jaqueta de couro

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A elegância da calça berinjela de Dora

Isabel é de família tradicional de São Paulo

Isabel é de família tradicional de São Paulo

As famosas botas coloridas setentistas também estão no figurino da série

As famosas botas coloridas setentistas também estão no figurino da série

Dario usa calça boca de sino e jaqueta de couro, dois clássicos da época

Dario usa calça boca de sino e jaqueta de couro, dois clássicos da época

Explosão de cores na Boca do Lixo

Texturas e decote profundo

Explosão de cores e texturas na Boca do Lixo

Explosão de cores na Boca do Lixo

General Souto e a esposa

General Souto e a esposa: sobriedade militar contrasta com artistas da Boca do Lixo

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Magnífica 70 vai ao ar nas noites de domingo, às 21h, pela HBO. Onze dos treze episódios desta primeira temporada já foram exibidos.

Séries citadas:

É jornalista formada pela Unesp e pós-graduanda em Gestão Cultural. No TeleSéries, escreve mensalmente a coluna Estilo. Aficionada pelas histórias de terror, sobrenaturais e de mistério, também não dispensa aquela comediazinha romântica... Pushing Daisies, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, Riget, Lost in Austen, Wonderfalls, Samantha Who?, Copper, Harper's Island e Hannibal estão entre suas séries preferidas de todos os tempos! :)

10 Comments

  1. Gabriela Pagano

    Eu é que agradeço suas palavras tão simpáticas, Arthur! ^^

  2. pedroluiz02

    Gabriela, belo texto porem a serie é muito fraca e mal dirigida, O Pereiro parece uma mumia fantasiado de general… Estou vendo no automoatico. Parabens pela pesquisa

  3. Gabriela Pagano

    Eita, sério, Pedro? Que pena! :(
    Realmente a série tem alguns defeitos, até de roteiro mesmo. Mas, no geral, estou gostando bastante (e tenho visto bons comentários sobre ela nas redes sociais). Uma pena mesmo. Obs.: dei risada do seu comentário sobre o Pereio, coitado! haha

  4. pedroluiz02

    Gabi, e tem mais : o Pereiro foi perseguido pela ditadura militar, esse papel deve ser a gloria p/ ele. Bj

  5. Gabriela Pagano

    Reconheço que a série tenha defeitos, mas não acho que ela seja somente estética, que todo o resto seja ruim. Dentro da proposta dela, tem muita coisa bem feita ali, ideias originais. Mas, realmente, é um seriado de nicho, dirigido a gostos muito específicos. Ou a pessoa vai amar, ou detestar. Tenho visto muita gente dizer que é a melhor série nacional. Não acho que chegue a tanto, mas é uma reação interessante, de extremos mesmo.

  6. Fernando d.S.

    Gostei bastante da primeira temporada. Os primeiros episodios são meio irregulares mas a série engrena a partir do episodio 3 ou 4.

  7. Karla

    É um conjunto, uma mistura de política, tragédia, tensão, isso tudo acoplado a um elenco gigantesco, à uma fotografia de dar inveja a qualquer produção internacional, a um enredo eletrizante, que mistura Julietas e Romeus, que trás para nosso presente um passado não tão distante, que ressalta a auto censura, o temor pelo conhecido. Magnífica, sem mais, eu encontrei aqui várias séries de dados e os Magnifica 70 vezes onde eles vão transmitir, deixar o link http://br.hbomax.tv/movie/TTL607353. A série se passa em um filme de época em São Paulo e Boca de Lixio foi chamado, onde fizeram uma auto-sustentável e filmes independentes com vários tipos de filmes, tais como poesia, drama, os políticos e também que são chamados de pornochanchadas, mas não tudo veio à luz.

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