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O Emmy validou: Doce de Mãe é a maior série de TV da história do Brasil

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Foi com um grande sorriso nos lábios que recebi a notícia dos vencedores da edição 2015 do International Emmy Awards: Doce de Mãe (ou Sweet Mother, para o mercado internacional) saiu consagrada como a Comédia do Ano pelos membros da Academia internacional.

É curioso que quando fizemos a última reforma no layout no TeleSéries – adotando este template que você vê aqui que tem esta chamada gigantesca no fundo da tela – usei uma imagem da Dona Picucha de Fernanda Montenegro para testar o template. O plano era colocar o site no ar com uma matéria meio inesperada para os padrões do site, que afirmaria, categoricamente, que Doce de Mãe era a melhor série da TV brasileira.

Infelizmente, a reformulação do site demorou um pouco mais do que o previsto. Doce de Mãe saiu do ar, e o meu texto exaltando a série de Jorge Furtado e da Casa de Cinema acabou não saindo do papel. Mas não é tarde pra reconhecer a série e sua relevância, que acaba de ser amplificada.

Doce de Mãe foi testada como um telefilme no Natal de 2012 – na verdade era um episódio piloto, agora sabemos – e depois veio ao ar com 14 episódios no verão de 2014. Já fazia tanto tempo que tinha ido ao ar que quando estreou muita gente nem lembrava mais que a série havia sido gravada em diversas locações nas ruas de Porto Alegre.

Nas entrevistas gravadas logos após a premiação, Jorge Furtado creditou o sucesso da série à presença Fernanda. De fato, Fernanda conduz a série, e sua dona Picucha não é uma personagem fácil: às vezes confusa e senil, outras vezes manipuladora e esperta, e cheia de nuances e segredos e profundidade.

Mas a série não é só ela. Jorge Furtado, cineasta premiadíssimo e diretor com boa liberdade criativa na Globo, reuniu em torno dele possivelmente as maiores estrelas disponíveis na emissora (Matheus Nachtergaele, Daniel de Oliveira, Drica Moraes…) e ainda mais renomados coadjuvantes (Francisco Cuoco, Lázaro Ramos, Sergio Mamberti…). E conseguiu dar a este elenco um texto cômico e leve e singelo. Doce de Mãe é sobretudo humana.

O pessoal da Casa de Cinema, que ainda não produz muitas séries (mas estão com uma no ar, Fora de Quadro, no Canal Brasil, recomendo!) também mostrou domínio na condução de uma narrativa seriada: Doce de Mãe costumava ter divertidos episódios fechados, ao mesmo tempo que ia desenvolvendo solidamente seus personagens semana após semana e amarrando o telespectador com uma trama em que Picucha investigava se o marido tinha tido uma filha fora do casamento, enquanto temia que esta filha pudesse ter uma relação afetiva com um de seus filhos.

Lembrando que entre o piloto e a estreia, Fernanda Montenegro levou o Emmy Internacional de Melhor Atriz por aquele primeiro episódio. Ou seja, a série já é marco da Globo com duas estatuetas. E inclusive é um bom lembrete para a Globo de como séries são narrativas ricas e comercialmente interessantes, porque perduram ao longo do tempo. Uma novela não pode ganhar dois Emmys, porque ela só vai durar o suficiente para concorrer um ano. Uma série pode se manter no ar por anos e anos, ganhando ainda mais prestígio se bem conduzida.

Alguém haverá de questionar a seriedade deste Emmy Internacional, especialmente porque pode parecer um saco de gatos e porque a cobertura aqui no Brasil é centralizada na Rede Globo, que parece desesperada por reconhecimento internacional. É compreensível. Mas quem acompanha a premiação sabe que ela é um belo termômetro. Séries que vão bem nela costumam eventualmente viajar o mundo, ou mesmo ganhar adaptações norte-americanas e isto mais do que atesta que estas séries são especiais. The IT Crowd e Moone Boy já foram eleitas como melhor comédia, Life on Mars e Les Revenants foram escolhidas melhor drama, Millennium melhor minissérie, Polseres Vermelles melhor programa infantil e o CQC original argentino o melhor programa sem roteiro, isto num levantamento rápido, citando séries que viraram objeto de culto também no Brasil.

Outra constatação curiosa é que Doce de Mãe é uma série com uma protagonista idosa, produzida num país de jovens adultos. Este paradoxo é absolutamente adorável. E isto só é possível no Brasil porque a Globo (pelo menos até há bem pouco tempo atrás), não tinha sombra, podendo se dar o luxo de apostar no conteúdo que quiser após às 23h. Nos Estados Unidos, um país com uma população mais envelhecida, o mercado publicitário segue focado no público jovem e por isto uma grande emissora bancar uma série com um ator da terceira idade é algo improvável. O resultado é que, tirando algumas séries históricas, como foram The Golden Girls, Matlock, ou Murder, She Wrote, você não vê vovôs e vovós protagonistas. O que é absolutamente incompreensível: já que a grande série da TV americana em audiência nos últimos 10 anos é NCIS, sabidamente sustentada por um elenco de telespectadores de mais idade (e que tem um protagonista de 64 anos e que é considerado um dos grande galãs da TV!).

Doce de Mãe é importante, e é importante além do Emmy. Não é uma série produzida no Brasil que emula uma série policial inglesa, ou que se baseia na fórmula de uma sitcom norte-americana. Ela é especial porque ela consegue ser verdadeiramente original e genuinamente brasileira (especialmente nos momentos em que Picucha age de forma moralmente questionável, ainda que com as melhores das boas intenções).

É uma série para ser revista e para servir de modelo. Até porque ela é, mais do que nunca, nossa maior série.

Séries citadas:

É jornalista, pós-graduado em Jornalismo Digital pela Pucrs e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. É editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Fundou o TeleSéries em agosto de 2002. Na época, era fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed. Atualmente é viciado em The Good Wife, NCIS, Game of Thrones e Parks and Recreation.

1 Comment

  1. Régis

    Apesar de morar em Porto Alegre e apreciar o trabalho da Casa de Cinema, não consigo ver esse mérito todo na série. Talvez porque eu não goste da Fernanda Montenegro, que considero uma atriz pouco versátil. Acho que a cara do Brasil, na verdade, é a série “A Grande Família”, protagonizada pela melhor atriz brasileira da atualidade, na minha opinião, Marieta Severo.

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